terça-feira, 30 de outubro de 2007

Análise da Tragédia “Castro” de antonio Ferreira (lit. portuguesa)

Análise da Tragédia “Castro”.
Dados sobre Antônio ferreira: (1528 – 1569)
Os dados biográficos relativos a Antônio Ferreira são bastante escassos. Nasceu em Lisboa em 1528. Era filho de um dependente do duque de Coimbra, D. Jorge, filho bastardo do rei D. João II. Fez os estudos preparatórios no Colégio das Artes, em Coimbra, freqüentando depois Cânones (Leis) na Universidade, onde chegou a ser professor em 1554. Em 1556 era Desembargador da Casa do Cível em Lisboa, quando casou a primeira vez com D. Maria Pimentel. Viúvo pouco depois, contraiu segundas núpcias em 1564 com D. Maria Leite. Chegou a viver algum tempo na região de Mirandela, onde o sogro tinha propriedades. Morreu em 1569, vítima da peste.
Foi em Coimbra que se familiarizou com as idéias humanistas e a estética renascentista. Nessa altura lecionavam na universidade alguns humanistas célebres, como Diogo de Teive e Jorge Buchanan. Através deles, das suas leituras, e do contacto com outros poetas contemporâneos ( Sá de Miranda , Diogo Bernardes, Pero de Andrade Caminha...) adquiriu uma sólida formação humanista, mas principalmente um conhecimento profundo da estética classicista.
Foi também no ambiente coimbrão, onde as representações teatrais eram relativamente freqüentes, que se familiarizou com o teatro clássico, tendo escrito duas comédias e a mais perfeita tragédia clássica da literatura portuguesa – Castro . Tal como o título indica, o assunto desta tragédia são os amores atribulados de D. Pedro e D. Inês de Castro. Este tópico tinha sido introduzido na literatura por Garcia de Resende , nas suas Trovas à Morte de D. Inês de Castro . Antônio Ferreira retomou-o e deu-lhe a forma superior de tragédia. Depois disso, muitos outros escritores, desde o século XVI até à atualidade, tomaram como tema esse episódio. O próprio Camões reconheceu as suas potencialidades e compôs com ele um dos episódios mais conhecidos d' Os Lusíadas .
Embora Sá de Miranda tenha sido o introdutor em Portugal da estética renascentista, António Ferreira foi seguramente o principal teorizador. Nas cartas , escritas em verso branco e dirigidas aos seus correspondentes, defende algumas das ideias mestras da literatura renascentista: valor da razão, que deve ser o principal guia do comportamento humano; busca permanente da perfeição formal, tomando como mestres os clássicos da Antiguidade; necessidade de elaboração de uma grande epopeia nacional, capaz de, à semelhança dos gregos e romanos, afirmar perante o mundo o valor dos portugueses; defesa acérrima da aurea mediocritas como o estilo de vida mais adequado, pela sua calma, simplicidade e ausência de ambições desmedidas – tal como Sá de Miranda, contrapunha a vida austera do campo à agitação e corrupção da cidade.
Como poeta, cultivou as principais formas renascentistas: além da carta , já citada, o soneto , a ode , a elegia , o epigrama ...
Dados Sobre o Episódio de Inês de Castro e sua intervenção Histórica.
Inês de Castro (1320 ou 1325 - 7 de Janeiro de 1355), uma nobre galega, foi amante e talvez esposa do futuro Pedro I de Portugal, tendo sido executada às ordens do pai deste, Afonso IV. Inês de Castro era filha ilegítima de Pedro Fernandes de Castro e uma dama portuguesa, Aldonça Lourenço de Valadares. O seu pai, neto por via ilegítima de Sancho IV de Castela era um dos fidalgos mais poderosos de Castela. Inês era portanto prima em 3º grau de Pedro (cuja mãe, Beatriz de Castela, era filha de Sancho IV).
Inês de Castro chegou a Portugal em 1340, integrada como aia no séquito de Constança Manuel, filha de João Manuel de Castela, um poderoso nobre descendente da Casa real Castelhana, que iria casar com o príncipe Pedro, herdeiro do trono Português. O príncipe apaixonou-se por Inês pouco tempo depois, negligenciando a mulher legítima, Constança, e pondo em perigo as débeis relações com Castela. Tentando separar Pedro e Inês, Constança convida Inês como madrinha do seu primeiro filho varão, o Infante Luís (1343), já que de acordo com os preceitos da Igreja Católica de então, uma relação entre um dos padrinhos e um dos pais do baptisando era quase incestuosa. A criança não durou um ano, o que fez aumentar as desconfianças em relação a Inês de Castro.
Sendo o romance adúltero vivido às caras, o rei Afonso IV (que havia promulgado leis contra este tipo de situações) manda exilar Inês no castelo de Albuquerque, na fronteira espanhola, em 1344. No entanto, a distância não apagou o amor entre os dois apaixonados e, segundo a lenda, continuavam a corresponder-se com frequência. Em Outubro do ano seguinte, Constança morre ao dar à luz o futuro Fernando I de Portugal, deixando Pedro viúvo e um homem livre. Inês volta do exílio e os dois foram viver juntos para longe da corte, tendo tido quatro filhos: Afonso (morto em criança), João, Dinis e Beatriz.
Afonso IV tentou por diversas vezes organizar um terceiro casamento para o seu filho, com princesa de sangue real, mas Pedro recusa tomar outra mulher que não Inês. O velho Rei receava a influência da família de Inês, os poderosos Castro, no seu filho e herdeiro; além disso, o único filho varão de Pedro e Constança Manuel, Fernando, era uma criança frágil, e crescia a insegurança em relação à sua vida para que um dos saudáveis filhos de Inês de Castro pudesse ocupar o trono. A nobreza portuguesa também começava a inquietar-se com a crescente influência castelhana sobre o futuro rei.
O rei Afonso IV decidiu então que a melhor solução seria eliminar Inês. Depois de alguns anos no Norte, Pedro e Inês haviam regressado a Coimbra e se instalado no Paço de Santa Clara. A 7 de Janeiro de 1355, o rei cede às pressões dos seus conselheiros, e aproveitando a ausência de Pedro numa excursão de caça, envia Pêro Coelho, Álvaro Gonçalves e Diogo Lopes Pacheco para executar Inês. Os três dirigiram-se ao Mosteiro de Santa Clara em Coimbra, onde Inês se encontrava e a degolaram-na. Tal facto, segundo a lenda, terá originado a cor avermelhada das águas que correm nesse local da Quinta das Lágrimas. A morte de Inês fez com que Pedro para se revoltasse contra Afonso IV, que responsabilizou pela morte e provocou uma sangrenta guerra civil. A Rainha Beatriz interveio e após meses de luta, a paz foi selada em Agosto de 1355.
Pedro tornou-se o oitavo rei de Portugal em 1357. Em Junho de 1360 faz a famosa declaração de Cantanhede, legitimando os filhos ao afirmar que se havia casado secretamente com Inês, em 1354 "...em dia que não se lembrava...". A palavra do rei, e de seu capelão foram a única prova deste casamento. Pedro perseguiu os assasinos de Inês, que tinham fugido para Castela. Pêro Coelho e Álvaro Gonçalves foram apanhados e executados (segundo a lenda, o Rei mando arrancar a um o coração pelo peito e ao outro pelas costas, e assistiu à execução enquanto se banquetava). Diogo Lopes Pacheco conseguiu escapar para França, e foi mais tarde perdoado pelo Rei no seu leito de morte.
Pedro mandou construir dois esplêndidos túmulos no mosteiro de Alcobaça, um para si e outro para onde trasladou os restos de sua amada Inês. A tétrica cerimonia do beija mão, tão vívida no imaginário popular, provavelmente foi inserida nas narrativas do final do século XVI, depois de Camões escrever em seu Canto III, a tragédia da Linda Inês. Pedro juntou-se a Inês em 1367, e os restos de ambos jazem juntos até hoje, frente a frente, para que, segundo a lenta "possam olhar-se nos olhos quando despertarem no dia do juízo final".
Inês de Castro tornou-se conhecida ao ter a sua história lembrada por Camões no Canto III d' Os Lusíadas, onde faz referência à «...mísera e mesquinha, que depois de ser morta foi rainha...». Foi amante e declarada postumamente esposa legítima de Pedro I de Portugal. A sua desventurada vida e controvertido casamento ainda faz com que historiadores se debrucem sobre o caso, procurando indícios se houve ou não um casamento.
D. Inês na Literatura
Os amores de D. Inês popularizaram-se não só na literatura erudita, entre outros com os árcades Manuel de Figueiredo e Reis Quita, mas também entre o povo, com o teatro de cordel e Bocage lhe dedicou uma cantata.
A primeira aparição dos amores de D. Inês na literatura dá-se com as Trovas à Morte de Inês de Castro, de Garcia de Resende, no Cancioneiro Geral de 1516. Mas é com Os Lusíadas, de Camões, que se constitui o mais influente fundo lírico do episódio de D. Inês de Castro, a «linda Inês», tal como surge no Canto III. A tragédia A Castro (1587), a primeira tragédia clássica portuguesa, de António Ferreira, foi escrita com base na sua vida. Com o Romantismo em Portugal que aumentou o interesse pelos factos históricos associados ao episódio. Alexandre Herculano e Oliveira Martins, entre outros, procuraram investigar, com algum rigor, as pessoas e factos históricos. Em 1986, num tempo mais próximo da atualidade, Augustina Bessa-Luís (1922-) publica as Adivinhas de Pedro e Inês
A tragédia Castro. (Ato III, cena II).

O pressentimento, este é o tema central da cena II do ato terceiro da tragédia “Castro” de Antônio Ferreira, tema que foi muito usado pelas histórias de ficção através dos séculos, desde os oráculos e sibilas da Antiguidade, até as mães e pais de santo da modernidade, e deu origem a livros, filmes, documentários, músicas, etc. A cena começa com um sonho que Inês tivera a noite passada e que por ela será interpretada como um sinal que indicará seu triste fim. A cena começará pelas indagações feitas por sua Ama que lhe questiona. Que choros e que gritos, senhora, eram... Os que t’ouvi esta noite?
Inês de Castro conta, então, a sua Ama o horrendo sonho que a fizera visualizar a morte (...) crua e fera. Em seu sonho Inês se encontra só num bosque... Escuro e triste e acaba sendo perseguida por feras que a fazia arrepiar de medo, e na tentativa de proteger os filhos é atacada por leões e lobos. Sua única alternativa é rogar aos Céus, para que a morte não a separasse de quem ela tanto amava:
“ (...) Então Alçava
Vozes aos Céus, chamava meu Senhor;
Ouvia-me e tardava; e eu morria
Com tanta saudade, que inda’agora
Parece que cá tenho.(...)”
A ama de Inês tenta sossegá-la dizendo o medo pode provocar essas visões, mas ela, irresoluta, chora ao pensar no dano que causaria em seu amado (D. Pedro – O Infante) com sua morte. Inês sente que alguma coisa lhe atormenta a alma, que algo lhe faz temer, sua ama tenta convencer que é coisa de sua imaginação, e adverte: “Temer de longe o mal é mal dobrado”. Castro como se já soubesse de sua setença determinada por Diogo Pacheco e Pêro Coelho, e acatada por El-Rei, desabafa:
“Como estará alma leda em culpa sua?
Julgam-me mal os homens, e a Deus temo.
A ama mais uma vez adverte Castro dizendo que se há pecado, será sua própria consciência quem acusará e se houve pecado, o casamento – Clandestino – dela e do Infante, já os havia “purgado”.
No final da cena Inês pede para os “pensamentos tristes, pensamentos escuros, carregados” irem embora e sua ama pede para que ela enxugue as lágrimas dos olhos para que os seus filhos não veja sua tristeza e se entristeçam também e Inês vê nos filhos seu amor.
Para fazer uma análise mais profunda, começarei por equiparar a antítese formada entre a Ama de Castro na cena II do ato III com o secretário do Infante na cena III do ato I. enquanto este, apesar da obediência ao seu senhor, tenta convencê-lo de que esse proibido amor seria sua perdição, aquela, apesar dos maus presságios de sua senhora, tenta acalmá-la e convencê-la de que tudo não passa de fruto de sua imaginação. Enquanto este diz ao infante que seus atos o levará à vergonha, tanto de seu nome quanto de seu pai, aquela faz com que Castro imagine-se já coroada:
“Outro dia verás que te amanheça
Mais claro e mais ditoso; em que a coroa,
Que t’espera, terás sobre esses teus
Cabelos d’ouro.”
Quanto ao estilo, a peça é formada de versos decassílabos, muito recorridos por autores clácissistas, repleta de arcaísmo e metáforas, e uma delas ocorre justamente na cena II do ato III. Refere-se as feras que, no sonho, atacam Inês de Castro e representam os conselheiros responsáveis por convencer o rei – que como Pôncio Pilatos lava as suas mãos de um crime brutal – a matá-la. Ocorrem, nesta cena, também o uso da Apóstrofe – interrompimento feito pelo orador para interpelar uma pessoa ou coisa personificada – em diversos momentos em que Inês evoca o seu amado.
Esta cena tem a função de anunciar ao publico e ao leitor que após o conselho tomar por si a decisão de matar Castro, a fortuna lhe alerta sobre o que ocorrerá. Assim também o é o Coro que se seguirá.
Também nota-se nesta cena muito lirismo onde a amante não se importa com sua morte e sim com a conseqüência que esta trará ao seu amor.
Organização: Professor Francisco Muriel

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